Por Luciane Moreau Coccaro

Rio de Janeiro, 17 de setembro de 2013.

Duas noites na casa de especiarias do Terpsí

Por Luciane Moreau Coccaro

Chego cedo ao centro de Porto Alegre no dia 12 de setembro, um dia de 35° à sombra, para assistir ao espetáculo do Terpsí intitulado Casa das Especiarias com direção de Carlota Albuquerque, espetáculo selecionado para o Porto Alegre em Cena. Caminho num dia quente do Mercado Público até o Museu do Trabalho, o local destinado ao espetáculo e que tem sido conquistado pelo Terpsí. Intuitivamente caminho para me preparar, porque estou ansiosa para ver a nova obra, preparação em vão como o leitor logo vai perceber. Na entrada, na fila, noto um burburinho na espera do lado de fora, um alvoroço aqui em mim porque sei que vou ver algo novo, mas em se tratando de Carlota não tenho ideia da proposta, a princípio, acho que vou gostar, tenho gostado há anos de seus inúmeros trabalhos, acho que entendo o mecanismo desta criadora, por ter escrito sobre os Ditos e Malditos e porque tenho acompanhado mais de perto suas obras, me acho entendida de Terpsí, mas nada me comunica ou de fato prepara o que está por vir.

respeitável público vai entrando inadvertidamente ao recinto, e eu no meio da massa. Primeira visão, antes mesmo de escolher um lugar para sentar, vejo Angela Spiazzi, a bailarina emblema do Terpsí, penso que já vi a Angela fazer quase tudo, mas não ainda ela sovando massa de pão com a camisa entreaberta a meia luz. Uma ação forte e firme diria Laban. Gosto já da proposta da cena sendo realizada durante a entrada do público. Poderíamos nos questionar a quanto tempo a Francine está preparando o chá? Café? Esquentando a água? Quem ela está esperando para o chá? Para quem ela devota este sorriso? Que mistério tem aí? E a Natália? Nova aquisição que nasceu pra ser Terpsí, ela é a cara do grupo, fumando seu cigarrinho (hoje já sei, cigarro de ervas lícitas) e pendurando os pratos na parede? Há quanto tempo? Pra que? Nem me dei conta, quando vi, já estavam todos pendurados? E a Angela? O que dizer dela? Que força naquele sovar, toda braços e ombros inteiros ali na ação. Acho que se o Laban tivesse visto a Angela nessa entrada ele iria inventar uma nona ação de esforço, porque tem tanta energia aí. Eu senti imediatamente na minha musculatura das costas e braços este sovar. Senti junto. As palavras massa que vira amassa dançam no corpo de Angela, as letrinhas soltas buscam o tempo do relógio em luz. Cena que me faz pensar, mas afinal que tempo é este?

            Olho, mais com meu olfato a meia luz e percebo que pareço estar numa casa mesmo, afinal me sento em almofadas confortáveis, tudo me indica ser uma sala de jantar e uma cozinha/copa. Mas que lugar é este? Onde eu estou? Meus sentidos me levam a um estranhamento, não, não estou em casa, estou num lugar que nunca pisei antes. Ai que bom, não consigo reconhecer tão bem agora, daqui pra frente sinto que fui tragada pelo espetáculo, o que deveria toda a obra de arte ser capaz de fazer com o seu público, capturá-lo, tirá-lo do chão, arrebatar, lançar para o novo, nos conduzir para um espaço desconhecido, único e inominável. Agradeço ao Terpsí, agradeço publicamente à Carlota, por ter me tirado da minha jaula, por ter me arejado e sacudido a minha poeira de supor que eu podia saber de algo, não sei de nada, vivo pela primeira vez algo e com o frio na barriga de toda a primeira vez – e Carlota! Ouve bem – tu nunca vai envelhecer. Ah, volto a esta chance de embarcar com eles nesta nova viagem, falo viagem porque tem mar, tem areia, tem ondas, sal grosso, e tem a sensação de um longínquo lugar que a gente nunca pisou, mas está pisando. Duas opções: pelo branco da cena penso em se tratar da Grécia, tem uma coisa de praia nesta casa, nestes corpos apesar de brancos quase alvos, mas uma praia grega ou do sul da França, porque sei é mais quentinho e mais solar. Este espetáculo me pareceu muito mais solar que tudo de Carlota. Ledo engano, como diz o Nei Lisboa, na minha frente inicia um desenrolar de cenas curtas, uma, imediatamente colada na outra, corpos ou parte deles se transfiguram, virando sempre outra coisa, um ritmo que não me deixa encapsular nenhum tipo de juízo.

Penso logo, como fica? Afinal tenho uma tarefa aqui hoje, me propus a escrever sobre a obra, me larguei lá do Rio para cá para isso, estava nítido o meu papel de escrever sobre a obra. Mas, já nos primeiros instantes percebo que talvez eu não vá dar conta, porque começo a perceber um deslocamento meu, me sinto derretendo com tanto calor e pulsar das cenas, deslizo minhas costas e meu derrière tocada pela plasticidade dos bailarinos e bailarinas que me confundem, todos os seis se transfiguram junto com pratos, massa, canela, cravo, marcela, pimenta; o tempo todo assim como uma preparação de comida que vai passando por mutações alquímicas até virar o prato feito. Nós, a plateia boquiaberta, vai assistindo a uma metamorfose dos corpos que vão virando a comida que precisamos pra viver. Penso no Kafka, no conto o Artista da fome, metáfora do artista faminto em busca do alimento que nunca vai saciá-lo, pois ele estaria esfomeado pela arte. Sim Carlota, sim Terpsí, estamos todos muito famintos e vocês nos ofereceram um banquete. A receita é dada enquanto compartilhamos sua preparação passo a passo nos corpos dos bailarinos – cabelos, costas, tórax e seios. Eu não gosto nem um pouco de Deleuze, mas lembrei dele, isto é que é devir, seu Deleuze. Duas sensações latentes: metamorfose e plasticidade.

Lembro do Malinowski, um dos pais da antropologia, que falava da plasticidade da vida social e também dos imponderáveis de pesquisar seres humanos porque a percepção é incapaz de compreender o ser humano em interação numa primeira olhada. É mesmo! Frente a tanta novidade sensorial me dei ao desfrute mesmo, me deixei levar, encantar, viajar, neste primeiro dia de espetáculo ri alto, sorri, provei da caipirinha que me deram durante, fiquei borbulhando tomada com tanta mudança de clima, de música, de ambiente – sempre diverso e instigante. Saí radiante pensando em Grécia, sul da França, sentindo as pimentas, canelas, os cravos, a fisicalidade de corpos lindos, jovens, esbeltos, fortes, sensuais, numa alquimia de luz, som e gestos. Extremamente de bom gosto. A maravilhosa velha que o Raul faz, a mulher canela, os bêbados mais geniais que já vi em cena, a anfitriã italiana e a menina robô. Todas estas figuras ficaram gravadas em mim por sua força, ineditismo, mistério e competência. Carlota, pra mim, acertou em todas as escolhas, não tem nenhum clichê, nada que pudesse ter sido decifrado e, deu química, como a gente diz no métier.

Termina no baile de pratos, corpos e especiarias. Peço pra rever no dia seguinte, ganho um convite, retorno dia 13 de setembro, certa de que agora está tudo dominado, já vi, já desfrutei, já curti e agora trabalhar e olhar com olhos de quem vai analisar e escrever. Trago em mente uma ideia como ponto de partida. Após ter feito recentemente um curso com a historiadora da dança Isabelle Launay sobre a Sagração da Primavera de Nijinsky, lembro de ela ter começado o curso perguntando que povo era aquele que o Nijinsky tinha inventado. E, depois de ter visto o espetáculo e de ter relatado algumas impressões, fiquei achando que seria um bom argumento iniciar tentando pensar em quem são estas pessoas da Casa de Especiarias. Que povo é esse? – Em que tempo e em que lugar eles se encontram? – Sabendo que o importante não é responder, entretanto, um espetáculo que nos faz levantar essas questões já tem seus méritos. Fui pela segunda vez na Casa com este subtexto.

Na entrada, aconchego de quem chega em casa, durante o desenrolar do espetáculo fui olhando mais atenta a todos da cena, querendo entrar mais na casa, nos dramas, nas interações, nas situações sejam individuais ou coletivas. Um primeiro olhar foi mais técnico, percebi a preparação física e destreza dos bailarinos, observei a coreografia – coloco em itálico porque é impossível ver uma coreografia, o que a gente vê são homens e mulheres dançando, porque em dança não está dissociado o que está sendo feito de quem o faz. A preparação corporal tem sido realizada por Angela Spiazzi e dá para perceber a técnica à La Marcel Mauss, ligada ao aprendizado social e a imitação do modelo eficaz – de novo em itálico porque esse termo não se refere apenas à execução dos passos, é bem mais abrangente que isto. No caso do Terpsí é um estilo de pertencimento ao grupo, um modo de inserção.

Outra observação sobre o trabalho de composição de Carlota, algo que sempre me chamou muito a atenção diz respeito à maestria de criar cenas, idéias e movimentos a partir, necessariamente, do engajamento dos bailarinos com elementos/objetos que passam a ser considerados cênicos. Esta característica tem sido uma espécie de assinatura do trabalho de criação de Carlota. E, na Casa de Especiarias, praticamente não tem nenhum gesto ou composição sem um elemento cênico. Aliás, a entrada e saída dos elementos em cena criam a ideia de metamorfose e de plasticidade no espetáculo. A noção de coreografia do espetáculo Casa de Especiarias reforça a proposta de criação de Carlota, ao apostar no objeto como motor da ação dos bailarinos.

Após estas considerações mais analíticas da obra, me dou conta de que o ponto de vista do público talvez seja a perspectiva mais intensa e próxima do que seria uma apreciação de um espetáculo, pois ela está carregada da experiência vivida no espaço-tempo efêmero e irredutível do espetáculo. Da memória das sensações que Casa de Especiarias me proporcionou nestes dois dias, fica a sensação de que cada dia de espetáculo é um, assim como, cada dia do espectador também é um. Na segunda vez, tendo como pano de fundo a tarefa de tentar descobrir que povo era aquele, adensei minha observação em cada um dos bailarinos em suas variadas performances. O resultado foi uma emoção a flor da pele também, mas que não me permitiu rir em quase nenhum momento, foi como se eu estivesse acompanhando os percursos nas vidas daqueles sujeitos desconhecidos. E, na cena final, aquela em que os bailarinos se deslocam entre especiarias espalhadas pelo chão e rodam seus pratos freneticamente, num looping que poderia ter durado horas; quando ele é interrompido – não conto para não perder a graça de quem não viu ainda – a ruptura de fluxo me fez explodir num choro, porque parece que parou, mas alguma coisa ficou girando ainda aqui em mim e mudando de lugar. Eu agradeço mais uma vez à Carlota e ao Terpsí, porque vocês me colocaram no meu lugar, ou seja, na plateia, local para fruir com a obra. E assim, repito o que disse pessoalmente pós segundo dia de espetáculo: Agora me pegou!

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