Por Caco Coelho

“A característica principal da arte, após a passagem de Bertolt Brecht sobre a Terra, é o desenvolvimento da linguagem. Não mais uma imagem estática, ou um ponto a ser atingido, o que é decisivo é o processo. Não importa ter percorrido um caminho, o vital, o que dá sentido à vida, é permanecer ir adiante. Este sentido de extrapolação, no entanto, não se encontra presente em todas as manifestações artísticas. Ao contrário. O mundo estigmatizado, o padrão de comportamento, a desesperada opressão do capitalismo, fez com que a arte se acomodasse à estufa. Dessa forma o sentido transgressor do devir, do desconhecido, foi substituído pela forma reconhecível, em detrimento da essencialidade do criador, o gesto único que amplia o mundo. Quando este encontro acontece, a vida se qualifica.

A Casa das Especiarias não é um espetáculo de dança, em que pese a excelência do que é dançado. Ele está além desta conceituação. A Casa das Especiarias envolve o espetador em mistérios, estimulados pelos cheiros, destampando escaninhos da nossa vida. As memórias vão sendo amassadas, ganhando novas formas. São folhas soltas, bastando um pequenino sopro para que ganhem vida própria. Dessa forma cósmica, o público vai sendo invadido, comungando num mesmo aroma e, a partir daí, resignando caminhos próprios, nos lançando por um roteiro de peculiaridades, atrelando o homem ao espaço que habita. Quando nos deixamos ser no mundo sem assumi-lo ativamente, ou nas doenças que favorecem essa atitude, os planos não se distinguem mais uns dos outros, as cores não se condensam mais em cores superficiais, elas se difundem em torno do objeto e tornam-se cores atmosféricas, pontifica Merleau-Ponty. Para que esta distinção ocorra, é preciso, literalmente, por a mão na massa. É imperioso que os corpos estejam engajados, numa dimensão existencial, que te toca, concretamente, às vezes, até às lágrimas. A comunicação dessa comunhão de expressões individuais somente é possível, felizmente ou infelizmente, se houver uma cumplicidade estabelecida através da ação. Portanto é, justamente, na composição libertária de corpos “engajados”, que se denota o rito da preparação. Isto é resultado de um encontro feliz, numa etapa de culminância da trajetória, em especial, da coreógrafa Carlota Albuquerque, quem sabe a nossa mais sensível artista, da lapidação ampliada da bailarina Angela Spiazzi, e na qualidade do conjunto de intérpretes. São momentos de plenitude de linguagem, encontrada com carga dramática de aguda densidade, exemplificada na dança com as cascas torcidas de canela, fazendo as vezes de teias, de garatéias que te agarram, desconstruindo barreiras, criando a ponte, levando ao delírio. O câmbio veloz das variadas frases, estabelecem um diálogo de vocações, atingindo o âmago cultural das nações, desde o jazz bas-fond, às melindrosas do picadilly, dando saltos para o interior de nós mesmos, como na imagem dos retirantes de Portinari, ou mesmo nas várias línguas do samba bossa-nova que cantou o Brasil para o mundo. Coisas e loisas, os pratos são quebrados e as gavetas não guardam mais pimentas. O balé das equilibristas, desfeitas no chão de detritos, encerra as vozes soltas e harmônicas de um espetáculo ardente.”

Caco Coelho

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