Por Ângela Lângaro Becker

A massa… amassa o pão

O tempo amassa a pele, o pão, o peito

a massa substitui os peitos que o tempo amassou

a farinha vira farra na cozinha, no balcão os corpos deslizam

os pratos escondem os corpos nus e dançam…

Não lembro de um trabalho cênico ter me tocado com lembranças tão íntimas e me convidado tão diretamente a participar. A espontaneidade dos atores ao experimentar as sensações trazidas por várias especiarias chega ao espectador como um convite irresistível de também participar. Não há como não tocar na história de cada de um que assiste. Algum pedaço daqueles corpos, alguma folhinha daqueles temperos, algum punhado de farinha ou algum cheiro exalado da chaleira fez parte em algum momento da história de quem assiste. Alguma palavra de conforto relacionada com o chá de marcela ou com alguma frase que se tenha ouvido na mesa: -“ É o garfo que vai até a boca e não a boca até o garfo!”

A massa faz bonequinhos de pão

Mas cozidos eles crescem, oh não!!

Lágrimas, folhas secas que caem, solidão…

O que diz cada pedaço cênico, cada gesto? Que crescer leva à solidão? Queremos os bonequinhos pra sempre pequeninos? O que se pode ler nos múltiplos significantes nesta obra de Carlota é completamente imprevisível. A possibilidade de deslizamento é extremamente rica seja pelos cheiros, pelos gestos dos bailarinos ou pelos textos. Instigam-nos a associar, projetar nosso íntimo e ali nos encontrarmos.

Casa das Especiarias, obra da Cia. Terpsí Teatro de Dança é um verdadeiro convite a revisitar as cenas do passado onde moram os traços do aconchego, mas também os sinais da solidão. A intensidade está presente na magia das descobertas, dos encontros e das degustações, mas também nas experimentações que testam os limites do desequilíbrio e da solidão. De uma maneira ou de outra as cenas convidam à visitação da memória de cada um. Além das cenas dançadas com extrema expressividade, são oferecidos ao público fragmentos de cheiros, sabores, cores, texturas.  A mistura de linguagens entre dança, música, imagens e texto fabricam um clima de alegria e intimidade. Embora o espectador apenas assista é como se tudo aquilo fosse realmente vivido por ele. A sensação é de encontrar algo de sua vida ali.

A obra de Carlota Albuquerque foi baseada no texto literário de Chitra Divakaruni intitulado “A Senhora das Especiarias”. Relata uma lenda sobre uma senhora que conhece segredos culinários capazes de realizar sonhos e desejos. Os olhos dela veem além das aparências, seus ouvidos ouvem os corações e sabem entender o mais secreto dos pensamentos. No entanto, até mesmo ela está sujeita às fraquezas do coração. E quando se apaixona resolve arriscar todos os seus poderes sobrenaturais por uma única noite de amor. Apesar da idéia central partir da literatura, o que torna espontâneo e original o texto de Carlota foi a pesquisa realizada através de laboratórios com os bailarinos, onde foi possível o resgate de memórias das histórias de cada um.  Fragmentos de cenas relacionadas com temperos, chás, ditos populares e muitas sensações táteis, olfativas e visuais puderam passar ao espectador o convite à visitação de sua infância. Foi assim que se pôde deslizar do corpo ao pão sovado, à pele amassada, ao envelhecimento, às perdas, aos pratos vazios ou quebrados, dos amores perdidos, até a solidão. O jogo de palavras num multiplicar de sentidos de cada um dos significantes em cena é fantástico.

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A sensibilidade desta montagem faz pensar no quanto Carlota Albuquerque é uma coreografa que está atenta ao psiquismo humano na composição dos gestos . Freud acreditou que o corpo feminino através de suas posturas e movimentos fosse resultante da inscrição de cenários e cores de outrem. Não só uma mulher, mas todo corpo que se movimenta comunica algo que não é para ser dito, mas apenas mostrado. E quando alguém dança produz escrituras que precisam ser lidas por alguém e cujo texto nunca se esgota. É desta forma que o corpo humano dá testemunha que está além da necessidade.

E esta é a linguagem da Casa de especiarias. Não se trata simplesmente de saborear uma comida, cada sabor ou cheiro se multiplica em inusitadas vivências. O que fica difícil é ir embora depois que o espetáculo termina. É preciso abraçar os atores que revelaram de forma tão sutil e indireta nossa própria intimidade, é preciso apanhar um pouco da marcela ou do funcho pq também nos pertencem, é preciso ver o que ferve na chaleira que deixa tudo tão cheiroso e do que mesmo é feita aquela cortina inacreditável com os coadores de papel colados uns nos outros. Os atores já sabem o efeito que provocam e já nos  esperam no final, acolhedores de nossa vontade de encontrar ali tudo aquilo que foi despertado em nossas lembranças.

Casa das Especiarias  foi contemplada pelo Prêmio FUNARTE de Dança Klauss Vianna 2010. Estreou no Museu do Trabalho em 2011 e reestreou na Sala Álvaro Moreyra, do Centro Municipal de Cultura, em Porto Alegre, dias 2, 3 e 4 de maio de 2014. A Cia. Terpsí Teatro de Dança foi homenageada em 2013 pelos seus 26 anos de trajetória.

Ângela Lângaro Becker é psicanalista; membro da APPOA; mestre em Psicologia Social e Institucional e doutora em Psicanálise e Dança pela Université Paris XIII

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